terça-feira, 31 de agosto de 2010

Minha oficina na USP em novembro de 2010.

Estarei dando uma oficina interdisciplinar em 25 de novembro no CAEM do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Veja a Oficina 11 em:
http://www.ime.usp.br/caem/oficinas

Acompanhe também o movimento das Mulheres em Ação em:
http://twitter.com/vivammarias
http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/6539

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Comentário sobre a entrevista feita por Ratinho com o assassino de Daniela Perez

10/04/2010


por vivillí gomes

Assisto muito pouco TV mas naquele dia cheguei em casa mais cedo e ao ligá-la e passear pelos canais deparo-me com a imagem daquele moço que me era conhecida. Parei o controle remoto: nossa é o Guilherme de Pádua! Deixei um pouco e comecei a ouvir e observar sua postura e do ratinho. Comecei a sentir um mal-estar muito grande e decidi mudar de canal e nada mais ver. Pensei muitas coisas neste lapso de tempo: 1.Como uma TV dá espaço para uma pessoa que mobilizou negativamente a opinião pública tão intensamente. 2. Mesmo tendo já cumprido a pena sabe-se que isso é questionável porque em outros países a pena para a crueldade cometida teria sido muito maior, quiçá prisão perpétua ou pena de morte. 3. A cara de pau, melhor dizendo, a frieza com que falava sobre o assunto, que tanto mexia comigo, chegando quase a náuseas, e que ele, o assassino da moça, falava tranquilamente relembrando fatos tão difíceis de relembrar por pessoas normais: comportamento sádico do rapaz, eu diria, típico de um psicopata. Uma pessoa normal, arrependida do fato, estaria envergonhada e não aceitaria vir à público tocar no assunto.3. O auto-controle do ratinho visivelmente afetado e percebido por qualquer mero observador e mais tecnicamente por um profissional da saúde mental, algo bastante forçado: estava vendo a hora que o ratinho iria encaminhar-se para suas explosões normais e corriqueiras no programa. Aquele não era o ratinho! 4. Considero esse ato do SBT uma ofensa a opinião pública brasileira, aos amigos, aos parentes e principalmente a Glória Peres. Se eu fosse a Glória entraria com um processo contra o SBT. Sim, o assassino foi preso, julgado, condenado e libertado. Tudo bem, ele é um cidadão com seus plenos direitos recuperados. Mas, o outro lado? Ah! a Daniela foi assassinada e não tem direito à ressurreição e voltar do além e viver sua vida normal. Em assassinatos, ainda mais desse tipo com requintes de crueldade onde não tem volta para a pessoa que se foi, penso que não deva haver volta para aquele que a fez forçadamente sair desta vida. Assim, a pena neste caso, como não sou a favor da pena de morte, deveria ser perpétua, como é perpétua ou eterna a vida concedida a Daniela. Por isso não é correto trazê-lo à público como se tudo tivesse voltado a estaca zero porque quem gerou, criou, educou aquela menina e a viu desabrochar como atriz linda e cheia de vida não a tem consigo e compartilhando da sua presença. Quem seria Daniela agora? Uma grande atriz global, de cinema, de teatro? Que prêmios teria ganho por sua atuação? Que belas atuações teria nos proporcionado e qual a contribuição artística e cultural que poderia ter dado ao Brasil? Vida ceifada. Vejam que as oportunidades são bem diferentes, o que demonstra a injustiça da justiça.
Veja reportagem e comentários em: http://www.reporterdiario.com/site/noticia.php?id=182746&secao=3

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Questões de gênero e empoderamento da mulher em situação de violência: o trabalho como espaço de convivência e sobrevivência.

Vivilí Maria Silva Gomes

A inserção da mulher no mundo do trabalho faz parte do processo de sua emancipação. Tem propiciado conquistas históricas que vêm contribuindo para a sua participação no âmbito da civilização contemporânea, em busca da construção de um mundo onde o olhar feminino soma-se ao masculino, amplia o espectro de possibilidades de convivências rumo a um mundo melhor para todos, mais justo e mais humano.
Porém, a ampliação dos espaços de atuação da mulher tem gerado um conjunto de problemas que se incorporam aos já existentes milenarmente e que caracterizam as formas de poder manifestados nos mais diversos aspectos da vida humana e suas relações, e que englobam o nível pessoal, social e ambiental. No comportamento social, predominante nos últimos milênios, a casa e a rua se separam, feminino e masculino mantém-se com espaços de domínio e ação bem localizados. O masculino encontrou-se nos espaços sociais, públicos e mais visíveis. Já o feminino teve seu domínio restrito a espaços mais reclusos, menos visíveis e não públicos: os chamados espaços domésticos. Os acordos de gêneros ocorridos ao longo da história para manutenção desses espaços de domínio visaram evitar ou minorar os conflitos de gênero mais dramáticos e geradores de um possível esfacelamento da estrutura social básica: a família. No caminho trilhado no processo civilizatório, principalmente nos dias atuais, esses acordos mostram-se frágeis, pois os espaços de ação dos gêneros se misturam, seus limites, antes tão bem definidos, agora ficam borrados. O feminino sai de sua clausura, expande-se em direção ao social. O masculino assume um papel mais intimista, mais doméstico com todas as suas nuances.
O corpo é também o incontestável espaço onde o masculino e o feminino se manifestam. Abriga uma psique que em essência não mostra de forma clara a distinção entre os sexos, que é uma construção sócio-cultural. E, neste campo, há um espectro infinito de possibilidades de manifestações do que se entende por masculino e feminino num mesmo indivíduo. É o corpo também o lugar de encontro entre homem e mulher, onde o amor se manifesta nas suas mais diversas formas numa mistura de espaços corporais que gera uma gama de imagens e vertentes interpretativas de relações que passam pela sexualidade, ora divinizada, ora demonizada. A psique masculina e feminina é afetada pelas condições a que se submete. E, isso gera um continuum de psique que se extrapola para o social e ambiental traduzindo-se em atitudes e comportamentos sintonizados em grande parte com o padrão patriarcal vigente. As próprias mulheres têm contribuído para a manutenção desse padrão, pois são as que educam homens e outras mulheres ao assumirem o papel de mães. Enfim, tanto mulheres como homens participam da manutenção desse status quo, que não está escrito de forma clara. Aliás, o que mais se afirma é o que não se sabe. Está, sim, escrito no imaginário de todos, homens e mulheres, manifesta-se em ações, muitas vezes, inconscientes de indivíduo para indivíduo, atinge a grande massa, origina-se em tempos imemoriáveis e perdura até hoje afetando nossas ações cotidianas e o nosso futuro.
Os 50 anos de feminismo já foram contaminados por interesses ocultos e que designam um padrão de ação que diverge da maternagem, solidariedade e cooperatividade características do comportamento feminino. Organizar o lar, cozinhar, lavar, passar, etc. Onde está o tempo do encontro consigo mesma? Onde está o tempo para o encontro com outras mulheres, em grupos nos quais possa falar dos problemas que lhes afligem e que traga benefícios coletivos em vez de se manterem fragmentadas e desunidas? O poder da mulher, uma vez fragmentado, não possibilita que o reconheça, o que só ocorrerá por meio de uma auto-análise do que se passa em essência consigo e no conjunto das mulheres, propiciando seu fortalecimento, seu empoderamento.
De qualquer forma, o processo está desencadeado e agora as mulheres não conversam somente na cozinha, na porta das escolas, nos salões de beleza, na casa das vizinhas, no portão de casa ou na janela. Seus espaços de conversa se ampliaram. A expansão do universo feminino não se atém aos espaços geográficos e sociais: são espaços de consciência. Espaços externos que se alternam com os espaços internos. Expansão da consciência feminina implica na expansão da consciência masculina e, conseqüentemente, na revisão dos papéis de ambos, homens e mulheres. Mas, até que isso ocorra, os conflitos de gênero visibilizam-se, se amplificam e tornam-se insustentáveis. Acionam o desmantelamento dos padrões sociais vigentes e tendem a se eclodirem em atitudes de desespero ou de desesperança. O grito das mulheres violentadas entre quatro paredes não pode mais ser calado, pois o corpo se mostra e não esconde mais as marcas das arranhaduras, das esganaduras, dos sufocamentos, dos estrangulamentos, os hematomas, os cortes, os ferimentos à bala. Sangue e lágrimas, lágrimas de sangue. Mulheres em situação de violência clamam pelo apoio da sociedade para se libertarem de seus algozes nos quais também se incluem. Precisam ser ajudadas a se libertarem de si mesmas, pois não se reconhecem como seres humanos plenos. Ah! E são muitas que já se foram. Muitas que não se sabe quem são. Porém, hoje, muitas são ilustres conhecidas, pois surgem na mídia aos montes. Embora silenciadas, o silêncio foi rompido: são Patrícias, Mércias, Elizas, Silvânias, Juceleides, Sirleis, Anas Paulas, Camilas, Sandras, Elianes, Anas Elisas, Marias as mais diversas, Islaine, Aparecida, da Penha. Sim, somos todas Marias da Penha! Que acionam a justiça, que lutam para a mudança da legislação. Ao se coibir atos de violência contra a mulher, criminalizando-os, passam a não ser encarados como “normais” socialmente e culturalmente.
A superação desses conflitos de gênero está na busca de saídas que envolvam formas assertivas para seu enfrentamento. Encontrar e acionar mecanismos de contenção da violência no sentido de ajudar mulheres e homens a se reconhecerem nessa confusão é fundamental. “Às vezes, reconhecer é o bastante.” diz Carl Rogers. E para isso o diálogo é imprescindível. Buscamos um caminho possível para o que se chama liberdade. E, liberdade na sociedade de mercado, no mundo do capital, significa independência econômica, viver de seu próprio ganho sem dependência do outro. Liberdade, numa sociedade que reabilita a escravidão, é ter trabalho e salário dignos para sua sustentabilidade e de seus filhos. O trabalho torna-se, então, o principal recurso para o empoderamento da mulher na sociedade do capital. Algumas vezes, a dependência não é econômica e essa é mais difícil de ser superada, pois depende de fatores pessoais e internos próprios da dinâmica psíquica da mulher. Mas, na maioria das vezes, o fator econômico relacionado ao profissional, onde a mulher se encontra no fazer algo que goste, que lhe atraia e ao qual esteja agregado um valor econômico possibilita sua sustentabilidade, o que a fortalece. A necessidade de inserção da mulher em situação de violência no mercado de trabalho também aumenta a demanda já existente, e ainda não atendida, de vagas em creches para seus filhos e filhas pequenos. Essa mulher vive em desamparo de seu cônjuge ou companheiro com o qual não pode contar no apoio, cuidado e manutenção da prole. Sofre com a contenção social externa por parte de seus próprios familiares que discordam de suas atitudes de libertação e com eles já não pode contar.
Sendo assim, o Movimento de Mulheres em Situação de Violência em busca de Trabalho reivindica ações do poder público em diversas esferas que facilitem:

- a qualificação profissional de mulheres nessa condição em áreas onde haja oferta de vagas no mercado de trabalho;

- a absorção desse contingente de mulheres em vagas já existentes no mercado quando qualificadas para tal. Para isso, é necessário, inicialmente, que se garanta a reserva de vagas para mulheres nessa condição similar ao regime de cotas já existente para outros grupos minoritários;

- a criação de novas vagas destinadas a esse contingente feminino.
Está lançada a proposta e acredita-se que possa ecoar nas câmaras legislativas, seja por meio daqueles que já as ocupam ou aqueles que desejam ocupá-las pelo voto popular. Conta-se com o apoio dos que se solidarizam com a causa das mulheres vítimas de violência, que voltam seu olhar para aquelas que geram e cuidam de nossas crianças, que as ampara e que possibilita sua emancipação em prol de uma sociedade onde homens e mulheres não somente se olhem, mas que olhem juntos na mesma direção e superem seus conflitos em benefício de um mundo mais justo e mais humano.

Movimento de Mulheres em Situação de Violência em busca de Trabalho

Faça sua adesão ao nosso movimento. Acesse o abaixo-assinado virtual disponível em:

http://www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/6539

Leia o  texto  "Questões de gênero e empoderamento da mulher em situação de violência: o trabalho como espaço de convivência e sobrevivência"

que subsidia essa discussão, que desejamos atinja as câmaras legislativas e possa gerar um Projeto de Lei.

sábado, 19 de junho de 2010

Veja a reportagem sobre fatos recentes ocorridos em escolas do Estado de São Paulo:

http://www.reporterdiario.com/site/noticia.php?id=193818&secao=12.

sábado, 12 de junho de 2010

Sermão da Montanha - Versão para Educadores

Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:

- “Em verdade, em verdade vos digo: Felizes os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Felizes os misericordiosos, porque eles...”

Pedro o interrompeu: - Mestre, vamos ter que saber isso de cor?

André disse: - É pra copiar no caderno?

Filipe lamentou-se: - Esqueci meu papiro!

Bartolomeu quis saber: - Vai cair na prova?

João levantou a mão: - Posso ir ao banheiro?

Judas Iscariotes resmungou: - O que é que a gente vai ganhar com isso?

Judas Tadeu defendeu-se: - Foi o outro Judas que perguntou!

Tomé questionou: - Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?

Tiago Maior indagou: - Vai valer nota?

Tiago Menor reclamou: - Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.

Simão Zelote gritou, nervoso: - Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?

Mateus queixou-se: - Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:

- Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

Caifás emendou:

- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?

Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:

- Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular...

Jesus deu um suspiro profundo, pensou em ir à sinagoga e pedir aposentadoria proporcional aos trinta e três anos. Mas, tendo em vista o fator previdenciário e a regra dos 95, desistiu. Pensou em pegar um empréstimo consignado com Zaqueu, voltar pra Nazaré e montar uma padaria... Mas olhou de novo a multidão. Eram como ovelhas sem pastor... Seu coração de educador se enterneceu e Ele continuou:

-“Felizes vocês, se forem desrespeitados e perseguidos, se disserem mentiras contra vocês por causa da Educação. Fiquem alegres e contentes, porque será grande a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram outros educadores que vieram antes de vocês”.

Tomé, sempre resmungão, reclamou: - Mas só no céu, Senhor?

- Tem razão, Tomé - disse Jesus - há quem queira transformar minhas palavras em conformismo e alienação.. Eu lhes digo, NÃO! Não se acomodem. Não fiquem esperando, de braços cruzados, uma recompensa do além. É preciso construir o paraíso aqui e agora, para merecer o que vem depois...

E Jesus concluiu: - Vocês, meus queridos educadores, são o sal da terra e a luz do mundo...

Texto de abertura do Programa Rádio Vivo — Rádio Itatiaia, Belo Horizonte, 15/10/2009, do Prof. Eduardo Machado.

sábado, 29 de maio de 2010

Veja em:

http://www.youtube.com/watch?v=exjLBxPoplk

Um trabalho com modelagem matemática em escola pública, orientada por Hideo Kumayama, especialista em origami.
veja mais sobre arteterapia nos vídeos:

http://www.youtube.com/watch?v=u86MizZIyEo

http://www.youtube.com/watch?v=2RVkUvDCkDs

Estes contém uma entrevista que dei no Programa de Bete Fratti na TV regional do ABC.

Currículo Lattes

Todo pesquisador  brasileiro tem um currículo público gerenciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq (http://www.cnpq.br/)

Esse currículo é chamado Currículo Lattes. Veja o meu em
HTTP://LATTES.CNPQ.BR/9308924915641221

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Sugestão de palestras e oficinas

http://www.ime.usp.br/caem/
http://www.ime.usp.br/caem/oficinas.php

Oficinas destinadas a professores de Matemática e áreas afins. Algumas oficinas oferecem propostas de trabalho interdisciplinares como no caso da oficina "João e o Pé de Feijão: modelagem matemática para crianças e adultos também" a ser ministrada por mim em 27/5/2010.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Sugestõs de leitura

http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/bilhoes-de-neuronios/a-educacao-muda-o-cerebro

http://www.dana.org/news/cerebrum/detail.aspx?id=26122

Textos recentes sobre palasticidade neural e a relação com a arte em especial a música.

sábado, 1 de maio de 2010

Arteterapia: um caminho para a cura?

“A arte cura?” pergunta Maria Margarida de Carvalho, a reconhecida Magui, pioneira da Arteterapia no Brasil, no título do livro que organizou (Carvalho, 1995).

"O objetivo primeiro de se fazer arte, como forma, som ou espetáculo, dentro de alguma concepção estética e com normas próprias, é a expressão do artista. Este pode ter vários objetivos com sua arte, mas com esse exercício coloca-se no mundo. De uma forma simbólica coloca a si mesmo no mundo. Porém, se praticarmos alguma atividade artística com o objetivo de se fazer psicoterapia, isto é, procurar facilitar a resolução de conflitos interiores afetivos e comportamentais, utilizando-se de algum meio de expressão artística, aí está-se praticando arte com uma função e orientação psicoterapêutica. Ou, se usarmos recursos artísticos para desenvolver conhecimentos de arte ou outras disciplinas e/ou aptidões artísticas, está-se fazendo arte-educação, mesmo que nesta atividade se reconheça um subproduto terapêutico. Este é de muito valor nas concepções mais modernas em educação e prevenção da saúde mental." (Andrade in Carvalho, 1995, p.39-40)

"Na construção do espaço da Arte em Terapia há duas vertentes onde os terapeutas expressivos/arteterapeutas se posicionariam num continuum." (Andrade, 2000, p.99) São elas:

- a Arte como Terapia, chamada Arteterapia no seu sentido mais amplo, denominada também Terapia Expressiva. Neste caso, Arteterapia/Terapia Expressiva seria um novo conceito com uma teoria própria pertencente a um domínio interdisciplinar, ainda em construção.

- a Arte como recurso auxiliar ou complementar em psicoterapia (ou educação). Neste caso, a Arteterapia estaria referenciada numa visão ou modelo de mundo, “subordinada a uma escolha e definição de um referencial teórico e operativo em função de um determinado objetivo” (Andrade, 2000, p.87)

A escolha de um referencial filosófico e uma abordagem psicológica para o trabalho em Arteterapia[1] está intimamente relacionada com a visão de mundo, própria do arteterapeuta, suas singularidades, aquilo em que ele acredita. Ao arteterapeuta cabe compatibilizar suas crenças, inclusive as religiosas, com o referencial escolhido no trabalho em Arteterapia/Terapia Expressiva. Isso ocorre porque o mundo ocidental separa a filosofia da religião, assim como a arte da ciência, o que já não acontece na tradição oriental onde essas construções humanas surgem integradas. Na tradição oriental essas separações não ocorrem de forma que as fronteiras entre o filosófico e o religioso não existem. E aí, essas separações e adequações carecem de significado.

A construção desse novo instrumento de ação humana no sentido do cuidado do ser, seja profilático, de tratamento ou de cura, requer uma amplitude de conhecimento teórico-prático-vivencial que incorpora:

- As quatro grandes construções humanas, Filosofia, Arte, Ciência e Religião, originárias da fragmentação das quatro funções psíquicas: pensamento, sentimento, sensação e intuição identificadas por Jung (1991);

- O entendimento do conceito de Arte e de Terapia;

- As vertentes e denominações em Arteterapia/Terapia Expressiva/Arte-Educação/Terapia Artística e suas linhas de origem: a abordagem histórica da loucura, a arte-educação, os referenciais teórico-metodológicos das psicologias e psicanálise e a antroposofia (no caso particular da Terapia Artística);

- A confluência dessas abordagens no decorrer do processo histórico resultando no trinômio construção-destruição-reconstrução, que também se manifesta no processo de conceituação e delimitação do campo de ação da Arteterapia e suas denominações.

A questão atual dessa delimitação relaciona-se diretamente a esse processo histórico e as suas linhas de origem. Clama-se, então, por uma “unificação”, uma conceituação e campo de ação interdisciplinar da Arteterapia, em que se respeite ou contemple essas diversas linhas mestras, mas que as transcenda nesta nossa cultura onde os paradigmas vigentes mesclam-se aos paradigmas emergentes nas mais diversas atividades e manifestações humanas.

A fantasia da separatividade, típica do pensamento ocidental, deve ser suplantada de forma que o ideal de beleza, de estética universal e atemporal deixe de ter significado em prol de uma Arte integrada às outras manifestações humanas, todas sujeitas às relações do homem com seu tempo e espaço, de forma sistêmica, quântica. Em tempos de incertezas, de multiplicidades, as relações interdisciplinares entre Arte, Psicologia e Educação possibilitam, num processo dialético, mas também de re-singularização, a reflexão e a reconstrução de ações humanas transdisciplinares, compatíveis com uma matriz holopoiética do ser que contemple as três ecologias: pessoal, social e ambiental. (Weil et al, 1993; Guattari, 2006)

"...trata-se de se reapropriar de Universos de valor no seio dos quais processos de singularização poderão reencontrar consistência. Novas práticas sociais, novas práticas estéticas, novas práticas de si na relação com o outro, com o estrangeiro, com o estranho: todo um programa que parecerá bem distante das urgências do momento! E, no entanto, é exatamente na articulação: da subjetividade em estado nascente, do socius em estado mutante, do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado, que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época." (Guattari, 2006, p.35).

Outro referencial importante: a abordagem gestáltica em Arteterapia. “A Gestal-terapia é uma abordagem psicoterapêutica nascida da interrelação de várias escolas filosóficas e teóricas a partir da organização específica que seu criador, Frederick Perls, construiu.” (Kiyan, 2006, p.146). Nesta abordagem, segundo Kiyan, existe a predominância do “presente sobre o passado, uma vez que tudo que há para ser trabalhado e conhecido em termos de funcionamento psicológico está disponível no agora.” (2006, p.12).


No “relato gestáltico” há uma presentificação do passado, o que pode ser valioso na busca de um resgate histórico daquilo que ainda é gestal[2] inacabada, não fechada. Segundo Andrade (2000), a vivência de arte em Gestal envolve o cliente em Arteterapia num fazer artístico, emocionalmente ligado a forma em criação como um evento pessoal, observando o que está sendo criado, percebendo o que sente no processo e também maneiras possíveis para desenvolver-se seguindo seus próprios insights[3] (Kiyan e Bonante, 2006).

[1] Ao usar o termo Arteterapia refiro-me a esse amplo e novo campo de ação.
[2] Gestalt significa forma ou figura, em alemão
[3] Insight, em psicologia junguiana, é a revelação de um processo intuitivo. Para Jung (1991, p. 430-431) a intuição é a função psíquica ou capacidade interior de perceber possibilidades.

Referências

ANDRADE, Liomar Quinto. Terapias Expressivas: Arte-Terapia, Arte-Educação, Terapia-Artística. São Paulo: Vetor, 2000.

CARVALHO, Maria Margarida M.J. de. (coord.) A arte cura?: recursos artísticos em psicoterapia. São Paulo: Editorial Psy II, 1995.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. 17.ed. Campinas: Papirus, 2006.

JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

KIYAN, Ana Maria M. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Altana, 2006.

KIYAN, Ana Maria M. e BONANTE, Ricardo (organizadores). Arte como espelho: experimentos em arte-terapia gestáltica. São Paulo: Altana, 2006.

WEIL, Pierre, D’AMBÓSIO, Ubiratan e CREMA, Roberto. Rumo à nova transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993.