“A arte cura?” pergunta Maria Margarida de Carvalho, a reconhecida Magui, pioneira da Arteterapia no Brasil, no título do livro que organizou (Carvalho, 1995).
"O objetivo primeiro de se fazer arte, como forma, som ou espetáculo, dentro de alguma concepção estética e com normas próprias, é a expressão do artista. Este pode ter vários objetivos com sua arte, mas com esse exercício coloca-se no mundo. De uma forma simbólica coloca a si mesmo no mundo. Porém, se praticarmos alguma atividade artística com o objetivo de se fazer psicoterapia, isto é, procurar facilitar a resolução de conflitos interiores afetivos e comportamentais, utilizando-se de algum meio de expressão artística, aí está-se praticando arte com uma função e orientação psicoterapêutica. Ou, se usarmos recursos artísticos para desenvolver conhecimentos de arte ou outras disciplinas e/ou aptidões artísticas, está-se fazendo arte-educação, mesmo que nesta atividade se reconheça um subproduto terapêutico. Este é de muito valor nas concepções mais modernas em educação e prevenção da saúde mental." (Andrade in Carvalho, 1995, p.39-40)
"Na construção do espaço da Arte em Terapia há duas vertentes onde os terapeutas expressivos/arteterapeutas se posicionariam num continuum." (Andrade, 2000, p.99) São elas:
- a Arte como Terapia, chamada Arteterapia no seu sentido mais amplo, denominada também Terapia Expressiva. Neste caso, Arteterapia/Terapia Expressiva seria um novo conceito com uma teoria própria pertencente a um domínio interdisciplinar, ainda em construção.
- a Arte como recurso auxiliar ou complementar em psicoterapia (ou educação). Neste caso, a Arteterapia estaria referenciada numa visão ou modelo de mundo, “subordinada a uma escolha e definição de um referencial teórico e operativo em função de um determinado objetivo” (Andrade, 2000, p.87)
A escolha de um referencial filosófico e uma abordagem psicológica para o trabalho em Arteterapia[1] está intimamente relacionada com a visão de mundo, própria do arteterapeuta, suas singularidades, aquilo em que ele acredita. Ao arteterapeuta cabe compatibilizar suas crenças, inclusive as religiosas, com o referencial escolhido no trabalho em Arteterapia/Terapia Expressiva. Isso ocorre porque o mundo ocidental separa a filosofia da religião, assim como a arte da ciência, o que já não acontece na tradição oriental onde essas construções humanas surgem integradas. Na tradição oriental essas separações não ocorrem de forma que as fronteiras entre o filosófico e o religioso não existem. E aí, essas separações e adequações carecem de significado.
A construção desse novo instrumento de ação humana no sentido do cuidado do ser, seja profilático, de tratamento ou de cura, requer uma amplitude de conhecimento teórico-prático-vivencial que incorpora:
- As quatro grandes construções humanas, Filosofia, Arte, Ciência e Religião, originárias da fragmentação das quatro funções psíquicas: pensamento, sentimento, sensação e intuição identificadas por Jung (1991);
- O entendimento do conceito de Arte e de Terapia;
- As vertentes e denominações em Arteterapia/Terapia Expressiva/Arte-Educação/Terapia Artística e suas linhas de origem: a abordagem histórica da loucura, a arte-educação, os referenciais teórico-metodológicos das psicologias e psicanálise e a antroposofia (no caso particular da Terapia Artística);
- A confluência dessas abordagens no decorrer do processo histórico resultando no trinômio construção-destruição-reconstrução, que também se manifesta no processo de conceituação e delimitação do campo de ação da Arteterapia e suas denominações.
A questão atual dessa delimitação relaciona-se diretamente a esse processo histórico e as suas linhas de origem. Clama-se, então, por uma “unificação”, uma conceituação e campo de ação interdisciplinar da Arteterapia, em que se respeite ou contemple essas diversas linhas mestras, mas que as transcenda nesta nossa cultura onde os paradigmas vigentes mesclam-se aos paradigmas emergentes nas mais diversas atividades e manifestações humanas.
A fantasia da separatividade, típica do pensamento ocidental, deve ser suplantada de forma que o ideal de beleza, de estética universal e atemporal deixe de ter significado em prol de uma Arte integrada às outras manifestações humanas, todas sujeitas às relações do homem com seu tempo e espaço, de forma sistêmica, quântica. Em tempos de incertezas, de multiplicidades, as relações interdisciplinares entre Arte, Psicologia e Educação possibilitam, num processo dialético, mas também de re-singularização, a reflexão e a reconstrução de ações humanas transdisciplinares, compatíveis com uma matriz holopoiética do ser que contemple as três ecologias: pessoal, social e ambiental. (Weil et al, 1993; Guattari, 2006)
"...trata-se de se reapropriar de Universos de valor no seio dos quais processos de singularização poderão reencontrar consistência. Novas práticas sociais, novas práticas estéticas, novas práticas de si na relação com o outro, com o estrangeiro, com o estranho: todo um programa que parecerá bem distante das urgências do momento! E, no entanto, é exatamente na articulação: da subjetividade em estado nascente, do socius em estado mutante, do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado, que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época." (Guattari, 2006, p.35).
Outro referencial importante: a abordagem gestáltica em Arteterapia. “A Gestal-terapia é uma abordagem psicoterapêutica nascida da interrelação de várias escolas filosóficas e teóricas a partir da organização específica que seu criador, Frederick Perls, construiu.” (Kiyan, 2006, p.146). Nesta abordagem, segundo Kiyan, existe a predominância do “presente sobre o passado, uma vez que tudo que há para ser trabalhado e conhecido em termos de funcionamento psicológico está disponível no agora.” (2006, p.12).
No “relato gestáltico” há uma presentificação do passado, o que pode ser valioso na busca de um resgate histórico daquilo que ainda é gestal[2] inacabada, não fechada. Segundo Andrade (2000), a vivência de arte em Gestal envolve o cliente em Arteterapia num fazer artístico, emocionalmente ligado a forma em criação como um evento pessoal, observando o que está sendo criado, percebendo o que sente no processo e também maneiras possíveis para desenvolver-se seguindo seus próprios insights[3] (Kiyan e Bonante, 2006).
[1] Ao usar o termo Arteterapia refiro-me a esse amplo e novo campo de ação.
[2] Gestalt significa forma ou figura, em alemão
[3] Insight, em psicologia junguiana, é a revelação de um processo intuitivo. Para Jung (1991, p. 430-431) a intuição é a função psíquica ou capacidade interior de perceber possibilidades.
Referências
ANDRADE, Liomar Quinto. Terapias Expressivas: Arte-Terapia, Arte-Educação, Terapia-Artística. São Paulo: Vetor, 2000.
CARVALHO, Maria Margarida M.J. de. (coord.) A arte cura?: recursos artísticos em psicoterapia. São Paulo: Editorial Psy II, 1995.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. 17.ed. Campinas: Papirus, 2006.
JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.
KIYAN, Ana Maria M. E a Gestalt emerge: vida e obra de Frederick Perls. São Paulo: Altana, 2006.
KIYAN, Ana Maria M. e BONANTE, Ricardo (organizadores). Arte como espelho: experimentos em arte-terapia gestáltica. São Paulo: Altana, 2006.
WEIL, Pierre, D’AMBÓSIO, Ubiratan e CREMA, Roberto. Rumo à nova transdisciplinaridade: sistemas abertos de conhecimento. São Paulo: Summus, 1993.
sábado, 1 de maio de 2010
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